domingo, 14 de junho de 2009

Brasileiro agora é Imortal da Academia Bahiana

O poeta Antônio Brasileiro deve sentar na levantada de Jorge Amado e Zélia Gattai, na Academia de Letras da Bahia. Ou seja, na cadeira 27. A eleição é hoje (08), às 17 horas, e ele é o único indicado. Das duas, uma. Ou pouca gente ‘tá querendo o posto ou tem escritor de menos nas atuais letras do Estado. De qualquer forma, é a última vaga. Todos os demais lugares estão ocupados por imortais locais, velhinhos, que seguem escrevendo suas letras, para número cada vez menor de leitores. É um problema do País.
A indicação de Antônio Brasileiro é quase unânime: 11 votos dos 15 possíveis. Ruy Espinheira Filho; o presidente da ALB, Edivaldo Boaventura; Joaci Góes, recém-eleito; todos estão esperando e já contando com a companhia do companheiro Brasileiro. A academia tem 40 cadeiras. E sempre houve certa polêmica neste tipo de acolhimento e conversão. Drummond nunca quis ser imortal da Casa de Machado de Assis. João Cabral foi meio achincalhado quando resolveu vestir a beca. Já Jorge Amado vestiu a beca, mas cortou a gola. Gilberto Gil usou uma dessas como alegoria na capa do primeiro disco tropicalista, etc.
Hoje em dia parece que ninguém liga mais. Hoje em dia esse papo de imortalidade está meio morto. Não significa estar se rendendo ao ‘establishment’. Como também perdeu a graça ser poeta de praça. Ou poeta marginal. Ou mesmo ser poeta. Isso porque as letras parecem pertencer e interessar apenas aos escritores e outra meia-dúzia de gatos pingados. Enfim, Antônio Brasileiro na Academia de Letras da Bahia significa exatamente o quê? Abertura da academia? Rendição do poeta? Nenhuma das duas coisas? Ninguém sabe ao certo... Por que o mundo está mudando e todos esses signos se refazendo. Graças a Deus! Talvez não signifique nada.
fonte: bahianoticias.com.br

terça-feira, 3 de março de 2009

Entrevista ao Jornal Artifício/UEFS (Fevereiro 2009)

Abaixo trechos em vídeo da entrevista que eu fiz com Antonio Brasileiro para o Jornal do D.A. do curso de Letras da UEFS - Jornal Artifício. Imagens e edição feitas por João Daniel Guimarães.



Entrevista a Revista Latitudes (França, 2004) - Parte IX

Sou ateu mas me dou muito bem com Deus

Latitudes – Em “Visão dos anos 80” o senhor parece querer exprimir uma vontade de dessacralizar os acontecimentos ou então de humanizar Deus: “…uma grande bomba que caía / Governo e terroristas / defrontam-se na avenida / e olham para o céu: não é nada, é Deus / gargalhando com uma lira nas mãos”.

A.B. – Sim. Eu gosto do sagrado. Sou ateu, mas me dou muito bem com Deus. Posso ficar lado a lado, par a par com ele, sem problema. Num poema como esse “Visão dos anos 80” posso até admitir que nem Deus consegue consertar o mundo, muito pelo contrário. Ele está é se divertindo - “Eu vou destruir tudo isso aí!” Ele tem pena, mas ao mesmo tempo acha tudo aquilo ridículo.

Latitudes – Sobre a verdade, no poema “Roda mística”, notei essa maneira de pensar: “A verdade é uma só: são muitas. / E estamos todos certos. E sem rumo.”

A.B. – São dois versos estranhos. Algo neles vai pelos extremos, é verdade. Mas penso que é possível viver com essas diferenças.

Latitudes – Ser poeta é sofrer também?

A.B. – Não há nos meus poemas nenhuma intenção desse tipo. Ser poeta é querer não sofrer.

Latitudes – O barco, o mar, o vento, são elementos que aparecem constantemente na sua antologia. Mas sobretudo o barco, como se houvesse uma obsessão em querer fugir, descobrir outro mundo.

A.B. – Não, não penso na fuga. Penso no barco como um estar vagando, um estar viajando, à mercê do mar, das ondas. O barco aparece também como algo de despedida, não de fuga. A fuga é uma coisa intencional, a despedida não. No barco as pessoas acenam, há algo de triste, emocionante. O mar e o vento representam mesmo a natureza. Eu me sinto muito mais seguro sozinho numa floresta do que no centro de uma grande cidade.

Latitudes – Aliás, no poema intitulado “Estudo 196”, incluído na parte “Estudos” (1965-1988), o senhor diz: “…perdidos no tumulto e no sampaulo / somos nuvens, meu amor, fuligem / de galáxias…”

A.B. – Todo brasileiro sabe que em São Paulo a gente se sente perdido. Acho sem sentido a vida nas grandes metrópoles.

Latitudes – Antes de nos separarmos, a tradicional pergunta: tem algum trabalho em preparação? E pode também apresentar, em poucas palavras, o seu livro “A estética da sinceridade”?

A.B. – Tenho inédito um livro de poesia que tem por título “Pequenos assombros”; devo publicá-lo ainda este ano. E tenho um ensaio que já está pronto, “Da inutilidade da poesia”, para ser publicado em 2002. Já “A estética da sinceridade”, publicação recente, são dez ensaios que tratam um pouco de filosofia e de teoria da literatura. Um desses ensaios, confrontando Guimarães Rosa e Martin Heidegger, vai ser publicado aqui na França pela PUF. Tem também um ensaio interessantíssimo sobre Fernando Pessoa, em que eu atribuo um poema de Ricardo Reis a Alberto Caeiro. Digo que Pessoa errou na atribuição do heterónimo e explico porquê. E, enfim, também tenho um livrozinho de contos – A montanha – que acabei de publicar.

Sorbonne, Paris, 3 de maio de 2001.

Entrevista a Revista Latitudes (França, 2004) - Parte VIII

… ou sustentar o tempo todo o querer viver.

Latitudes – O senhor fala muito da fragilidade da vida.

A.B. - É. Nós temos que sustentar o tempo todo esse querer viver. Por isso é que a arte é necessária. Porque vale a pena viver. Se não houvesse a arte, nós não seríamos nada. A arte é que diz : “Olha como o dia está bonito, olha como é bom a gente conversar, olha como esse livro é maravilhoso!” É por isso que nós somos frágeis. A partir do momento em que essa arte começa a ser abolida, a humanidade morre de tédio!

Latitudes – E é por isso que o senhor utiliza a forma progressiva “ir vivendo” em vez de “viver,como se a nossa vida precisasse sempre desse “sustentar” de que o senhor falou?

A.B. – É exatamente isso: a necessidade de estar sempre continuando, sempre inaugurando a vida.

Latitudes – Certos versos estão entre um duplo parêntese (( …….)) !

A.B. – O parêntese é uma maneira de camuflar, ele esconde. O verso fica tão bem escondido que acaba sendo a parte mais visível. É como às vezes o parêntese para fora )…….( que põe entre parêntese todo o resto do poema.

Latitudes – « O estilo é uma falsa fera » e « o domador é um falso homem », lê-se num outro poema. É a vontade de não entrar em nenhum estilo e romper com o academismo, com o classicismo?

A.B. – Você percebe coisas essenciais. De repente, tanto o autor com seu estilo, como o público que aplaude, estão querendo algo. Mas será que estamos entendendo, ou aplaudimos só por aplaudir? Será que estou fazendo boa coisa nisso tudo? Com o meu estilo, posso estar também enganando as pessoas. Então, ponho em dúvida tudo isso.

Entrevista a Revista Latitudes (França, 2004) Parte VII

Aceitar a hegemonia do “wall-street”…

Latitudes – Um dos seus poemas tem um título bem explícito: “O mundo, que deste pequeno quarto vejo e não compreendo”. E logo nos primeiros versos o senhor acrescenta: “… que de wall-street vêem e não compreendem”. Também fala ironicamente de “sem-juízo final” e de “megacrepúsculo”. Tem receio do fim do mundo?

AB. – Sim, mas é o temor normal. A paz sempre foi uma exceção, como se sabe. Mas meu temor é só o normal.

Latitudes – Hoje de manhã vi uma publicidade no metrô parisiense que dizia: “Yes, I speek english, wall-street english”. Esse tipo de mensagem deve entristecer muito o poeta…

A.B. – Sim, porque abole as diferenças. Há uma hegemonia. A língua inglesa é belíssima, mas está empobrecendo porque está havendo uma hegemonia do “wall-street”.

Latitudes – “Viver é uma necessidade”, é o que lemos num dos seus poemas, como se fosse ridículo viver. É um momento de desespero?

A.B. – O que há é um pouco de descrença na humanidade. Sublinhe-se aqui “humanidade”.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Entrevista a Revista Latitudes (França, 2004) - Parte VI

Cabral, Caminha … e as raparigas, ou como desmistificar a história

Latitudes – Voltando à “História do Gato”, na qual existe uma conversa entre o Gato, Cabral e Pero Vaz de Caminha. Parece uma fábula. O senhor queria falar, metaforicamente, da complexa relação entre Portugal e o Brasil?

A.B. – Sim, é uma fábula. Mas eu não pensei nesta questão da relação complexa entre Portugal e o Brasil. Eu estava brincando. Tenho um grande amor por Portugal, adoro o livro de Pero Vaz de Caminha, é uma obra de arte. Apenas achei que deveria brincar, reduzir a imagem de Pedro Álvares Cabral a um homem de 30 anos, sujo, fedorento, como qualquer navegador daquela época. Eu queria desmistificar e humanizar a história. E Pero Vaz de Caminha, um homem de 50 anos, estava também lá, atrás das raparigas. Era o escritor que estava inventando. Em certo momento, o comandante diz uma coisa e Caminha escreve outra, pois só o que é escrito fica. Meu Caminha sabia disso.

Latitudes – Como vê a evolução da lusofonia no mundo? Acha que deve haver uma comunidade dos países lusófonos?

A.B. – Sim, acho que os países lusófonos deveriam criar uma comunidade, como acontece em certa medida com os países de lingua inglesa e francesa. Nós não temos essa ligação, não trocamos livros, eu procuro conhecer os autores portugueses mas há pouca coisa no Brasil. Parei em António Ramos Rosa, poeta de que gosto muito. Os poetas portugueses de 30-40 anos são inexistentes no Brasil.

Latitudes – No poema “Visão dos Anos 80 - A Pomba Nuclear”, da sua antologia, é questão de paz e também da ameaça de um mundo hiper-integrado que está chegando.

A.B. – Na época em que escrevi este poema, há uns vinte anos, havia alguma coisa no ar. Hoje, essa “industrialização” da cultura, digamos assim, representa uma coisa muito grave. A “Pomba Nuclear” é porque “pomba”, ao evocar “bomba”, me fez pensar que essa paz que temos agora também pode ser uma bomba. A pomba que representa a paz pode ser apenas uma fantasmagoria. Será que nós estamos em paz? Às vezes acordo me perguntando: será que vai haver uma guerra? Pode acontecer. Nada indica que vai acontecer, mas em poucos dias tudo pode mudar.

Entrevista a Revista Latitudes (França, 2004) - Parte V

Dar um nexo ao caos

Latitudes – No n° 3 (maio 2000) da revista baiana Iararana, no seu conto “A História do Gato”, o senhor diz: “Sempre duvidei que se pudesse explicar o que quer que fosse. O que fazemos todo o tempo é dar nexo ao caos. E o caos? Carece de outro sentido de ser senão o que é? Não há nexo, as obras primas a rigor são falsas”. Então, as obras primas são falsas?

A.B. – Elas são falsas nesse sentido: não seguem a realidade trivial, a realidade que as pessoas costumam ver. Elas são falsas porque criam uma outra realidade. Mas criar uma outra realidade, no meu modo de entender, não é desviar da realidade, é realmente dizer qual é a realidade mais importante, a que mais interessa. Então, para um poeta, é a que ele cria. A realidade à qual ele está submetido é muitas vezes a realidade sem valor, “inventada”. Mas a inventar por inventar, prefiro as minhas invenções. As realidades foram criadas, a minha linguagem foi criada, assim como o Brasil também foi criado. Não foi Portugal que o criou, Portugal também foi criado, a nação portuguesa foi invenção de Camões, de Fernando Pessoa, invenção de todos os escritores, de todos os pensadores… Senão seria um amontoado de gente e não era nada. Essa idéia do que é uma nação, do que é uma linguagem, uma filosofia, são criações humanas. E a poesia é uma criação. Ela é falsa, mas se quer a melhor.